Ibitinga, Domingo, 21 de Outubro de 2018
Pelo 15º ano artesã borda na Feira do Bordado
A ex-professora recebeu um convite desafiador para bordar em uma máquina que estava parada por 40 anos; foi assim o começo
Pelo 15º ano artesã borda na Feira do Bordado

  Há quinze anos Nereide Branco Trofino expõe seus trabalhos na Feria do Bordado de Ibitinga. Com uma máquina de costura que ganhou do seu pai, ela borda peças de Richelieu e garante que não sabe desde quando o item cada vez raro, começou a ser fabricado em Ibitinga.

  O trabalho exposto na Feira do Bordado começou quando Nereide recebeu um convite do então secretário de Cultura da época, Luiz Mapelli, e de lá pra cá, vem enchendo os olhos de quem passa pelo evento.

  “Esse tecido estava na gaveta de alguém, e que ficou por vinte anos, e me trouxeram para bordar”, explicou a artesã, na última terça-feira (10), sobre o tecido que já estava desfiado (técnica que antecede a prática de bordar, que já não é fácil encontrar quem faça).

   Nereide lembra que antes de bordar na máquina, começou a bordar à mão, na escola que estudou por dois anos; a 'Escola Artesanal', que era situada no prédio entre as ruas José Custódio e Dr. Teixeira, onde atualmente funciona o departamento de Recursos Humanos da Prefeitura, em prédio em frente ao da Receita Federal. A escola, tinha como diretor o professor Benedito Teixeira de Macedo, que hoje dá o nome em umas das escolas do município. “Foi a melhor escola que tivemos no Brasil. Ensinava de tudo, até parto ensinava”, comentou. “As pessoas que podiam mais, iam estudar o 'Normal', e as famílias que podiam menos, enviavam os filhos para esta Escola Artesanal. Ensinava bordar, fazer tricô, arte culinária, jardinagem, floricultura, ensinavam um monte de coisas, tudo do dia a dia”, explicou. “As pessoas pobres iam fazer essa escola, isso eu tinha 10, 11 anos”, explicou Nereide, que nasceu em 1941.

  Em 1952: “Ninguém me conhecida como bordadeira”, lembra. Ela recebia os bordados das costureiras que terceirizavam esta arte. “Aí eu percebi que se eu bordasse na máquina eu ganhava mais. Eu tinha uns 12 anos quando percebi que bordando na máquina eu ganhava muito mais”, avaliou. 

  “Eu saia descalça vendendo verdura na rua, todos os dias”, relembra Nereide, quando começou o trabalho de bordadeira, que era intercalado com as vendas de hortaliças nas ruas da cidade. Depois que deixou o comércio de hortaliças, “eu bordada das 6:00 horas  da manhã até a meia noite”, explicou.

  Dos 12 até os 22 anos Nereide bordou. Se casou com 21 anos, mas com 22  anos, o sogro orientou ser empresária dos bordados. Comprou máquinas, contratou mão de obra e empreendeu. “Naquele tempo era muito fácil financiamento no banco, não tinha juros”, destacou. Com 28 anos, já tinha duas filhas, quando ingressou na 'Escola do Comércio'. Depois de dois anos, passou a estudar no Colégio Victor Maida, onde fez o colegial. Continuou estudando em Bauru, onde fez Educação Artística, Desenho e Artes Plásticas. Quando se formou, começou a dar aulas; ao mesmo tempo que ia parando de bordar. “Aí chegou o Departamento de Trabalho, e não tivemos mais condições de ir pra frente”, lamenta. “Tivemos que pagar imposto, isso aqui não entrou como artesanato, entrou como indústria”, explicou bordando um 'caminho de mesa' vermelho, de aproximadamente 1,5 metros, com o tecido que permaneceu desfiado por 20 anos em uma gaveta. “As bordadeiras nos levaram no departamento do trabalho e tivemos que pagar todos os direitos delas. Nessa  altura, acabou o linho, e  a gente negociava com as bordadeiras, dava máquina, tecido, até acabar com tudo. Nessa altura em 6 meses acabou com este bordado na cidade, e aí entraram os homens e eles tomaram partido e foi assim que começou as indústrias grandes, isso por volta de 85 pra frente”, relembra.

Início na Feira do Bordado

   “Fiquei 20 anos sem bordar. Quando  comecei com a indústria, eu já não era bordadeira, eu era industrial. Eu não sentava mais na máquina para bordar.  Aí fui professora e comecei a lecionar em Tabatinga, e lecionei para um Senhor chamado Luiz Mapelli. O tempo foi passando e um dia (em 2002) eu entrei nesta feira aqui e encontrei com ele, que falou – olha dona Nereide cada bordado bonito”, lembra a artesã, que respondeu – “isso aí está tudo feio, eu que bordo bonito”, lembrou. “Aí ele falou assim: - em setembro a senhora vai para São Paulo representar Ibitinga no bordado. Ele falou isso pra mim e eu fiquei quieta né, mas quando foi uns dias antes, ele chegou na minha casa e disse que iríamos para São Paulo, eu disse; como?”, relembrou Nereide, com entusiasmo. “Tinha uma televisão em cima desta máquina, não sei como eu não vendi. Deus não quis. Ela ficou 40 anos parada, e estava dura, e nessa altura meu marido completava um mês que tinha operado do coração e não podia pegar peso, aí eu fui, eu e uma faxineira, e colocamos essa máquina em cima de uma caminhonete, e levamos para alguém engraxar a máquina. No outro dia ela estava pronta, e eu pratiquei um dia, depois de 40 anos, e fui pra São Paulo, e no outro ano fiz igual, e aí comecei a vim na feira”, explicou, com naturalidade, sem parar de bordar, o caminho de mesa vermelho.

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